Tag Archives: Rede Globo

Nova Mídia (colaboração) x Velha Mídia (restrição)

25 nov

Durante a abertura oficial da Copa, no dia 10 deste mês, uma expressão tomou proporção global pelo microblogging Twitter. Segundo a Folha de São Paulo, a frase CALA BOCA GALVAO figurou em primeiro lugar no Trend Topics mundial – as palavras ou expressões mais tuítadas da rede social de 140 caracteres, durante seis dias consecutivos por todo o globo. O sucesso foi parar no New York Times e no espanhol, El País. Entretanto, na rede, quando um conteúdo se viraliza, ou seja, é repassado com rapidez e simultaneamente para vários usuários e suas redes virtuais, isso quer dizer que algo que ele carrega se tornou relevante para que este movimento ocorresse. Uma das “regras” do relacionamento virtual é que notícia relevante se espalha, ainda mais se envolver o engajamento dos internautas. É óbvio que em função de nossa sociedade líquida e cheia de melhores bandas de todos os tempos da última semana o que se julga como “relevante” é por demais relativo. A questão é que a expressão já data de um tempo no Twitter e acabou chamando a atenção do público internacional impulsionada pela curiosidade de ingleses e americanos com o grande número tuitado no dia 10. Perguntaram aos contatos brasileiros o que siginicava “CALA BOCA GALVAO” e estes, sabiamente conhecedores das “regras” disseram que se tratava de um pássaro da fauna brasileira ameaçado de extinção. Em poucos minutos a piada se espalhou pelo microblogging e rapidamente um novo conteúdo entrou em cena: um vídeo lançado pelo Instituto Galvao, uma suposta empresa de pesquisas de apoio ao pássaro ameaçado de extinção, pedindo ao público que divulgasse sua campanha através do twitter. A cada tuíte com a expressão CALA BOCA GALVAO, a causa do Instituto receberia 10 centavos de dólares. A febre em ajudar através do clique fez a frase se espalhar pelo mundo inteiro, provocando pensamentos nobres, risadas e desinformação.

Uma rápida operação de RP

CALA BOCA GALVÂO - segundo a Folha, a faixa foi retirada com dois minutos de partida

Apesar de toda repercussão sobre a ave ameaçada por nossos carnavais, o que estava em jogo na verdade era, justamente, a imagem do locutor da Rede Globo Galvão Bueno. Durante o primeiro jogo da Seleção contra a Coréia do Norte, um cartaz com a frase apareceu durante a transmissão. Alguns minutos depois, ela foi retirada. Há rumores de que a Rede Globo solicitou que a organização censurasse a faixa. Mais tarde, em uma rápida operação de contra informação, o jornalista Tiago Leifert, no comando do programa global sobre a Copa, chamou o locutor ao vivo e ambos conversaram sobre o ocorrido, na tentativa de amenizar a situação. Porém, o tiro parece ter saído pela culatra e a expressão permaneceu em primeiro lugar até esta segunda, 21.

A campanha se tornou hit na web com o apoio de celebridades como Paulo Coelho, inclusive sendo divulgada como um novo sucesso da cantora Lady Gaga, como revela reportagem da Folha. Porém a liderança mundial de CALA BOCA GALVAO foi tomada em função de um outro episódio global. Em uma entrevista coletiva após a vitória do Brasil sobre a Costa do Marfim o técnico Dunga entrou em conflito com o repórter da casa Alex Escobar. A reportagem que foi ao ar no Fantástico apresentada por Tadeu Schmitd, diz que o técnico teria xingado Escobar e outros jornalistas. Entretanto, na hora em que o áudio iria revelar a expressão, um efeito de áudio (piiiiiiiiiiiii) não deixou o receptor falar por si. Estes tiveram que confiar nas palavras da emissora proferidas por Tadeu. Em poucos segundos, a expressão CALA BOCA GALVAO foi substituída por CALA BOCA TADEU SCHMITD.

Para que a frase tivesse sucesso de forma mundial, uma nova campanha surgiu na Internet. Dessa vez, a ajuda é para o “macaco em extinção Tadeu”. A cada retuíte, um dólar seria depositado na conta do Instututo Galvao para salvar o também ameaçado macaquinho.

CALA BOCA TADEU é o novo "hoax" da Internet

Uma rede de boatos

Um Hoax, na linguagem da rede é o equivalente a fofoca e boato em português. Muitas informações que circulam pela Internet não passam de boatos e invenções da mente humana. A circulação cada vez mais intensa de informações, o número crescente de blogs e novos usuários criando perfis a cada dia, fez a rede virtual se tornar um local ideal para que conteúd0s possam ser espalhados e conhecidos e não necessariamente, apurados. Como as fronteiras que dela emergem não são visíveis e usuários de distantes realidades sócio-econômicas e culturais estão em intensa comunicação, seria plausível haver um desconhecimento sobre o real significado de uma expressão como CALA BOCA (sem artigo mesmo). Afinal, a língua “oficial” da sociedade interconectada é o inglês e não o português. Quem avisou ao NYT sobre a barriga – nome dado à notícia falsa publicada, foram os próprios usuários que comentaram a matéria.

Aqui no Brasil, a revista Veja também deu ibope para a questão. A publicação apresentou o caso e o destacou com a capa da edição dessa semana (20/06/2010).

Galvão e Twitter: velhas mídias x novas mídias

Independente da opinião pessoal, Galvão Bueno é um personagem da mídia que ocupa um grande espaço na relação do brasileiro com o futebol. O fato é que muito mais do que narrar os jogos e seus lances, o locutor arranca cabelos dos telespectadores seja ao tecer opiniões e conceitos duvidosos ou ao errar nomes. E essa história já antiga na Internet e conta com vários vídeos de gafes do locutor no YouTube. A bola e a TV são aliadas há tempos e cada vez mais, a cobertura televisa sobre o esporte bretão se torna maior e mais intensa. Não é a toa que nos últimos anos o departamento de jornalismo da Rede Globo passou a ser denominado Central Globo de Jornalismo e Esporte.

Esta Copa tem sido considerada como o primeiro evento mundial em que a Internet se tornou o grande palco de debates, imagens e audiência. A rede se configura como a grande rival e, ao mesmo tempo, alimento da velha mídia de massa televisiva. A maioria das redes de TV têm sites e portais que continuam seu conteúdo, contribuindo também para uma nova relação com seu público, além de garantir mais investimentos publicitários e propaganda institucional para seus impérios midiáticos. Até bem pouco tempo atrás, o domínio sobre a circulação de informações de forma massificada pertencia às empresas de mídia e aos estados. Todavia, as redes sociais vêm quebrando esta regra e abalando um velho sistema, base para as relações econômicas e institucionais de várias partes do globo durante um bom período do século passado. O usuário, antigo receptor passivo (em termos) e à mercê do conteúdo oferecido por TVs, estações de rádio e publicações impressas, atualmente, muito mais que o controle remoto, possui ferramentas simples para que suas opiniões e informações possam ser visualizadas por outros usuários e também por veículos de comunicação. Aliás, o conteúdo postado na Internet tem servido de base, tanto para campanhas publicitárias que contam com o apoio espontâneo dos internautas para a divulgação de promoções e campanhas, quanto para o próprio jornalismo e o entretenimento. Os programas de TV, jornalísticos ou não, ora se pautam por estes conteúdos, ora os replicam em seus espaços e horários, garantindo audiência, curiosidade, mas também, mostrando o admirável mundo novo em que cada um, aparentemente, deixa o anonimato e a indiferença e passa a fazer parte de uma mesma pátria em que os bits de informação e as linguagens virtuais ultrapassam a tela do computador e dos smarts phones, diminuindo as fronteiras e levando o mundo a testar a profecia nietzschiana do “muito além do bem e do mal” na pele. A inteligência coletiva se processa nas redes digitais e o mundo tecnológico em mutação, reserva ainda mais peculiaridades que meros 140 caracteres.

Por João Paulo de Oliveira – @jkerouac on Twitter

Anúncios

Muito Além de Cidadão Kane

12 nov

Tapa na cara da Rede Globo – Doc. BBC sobre massacre midiático no Brasil.

%d blogueiros gostam disto: