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Ventivinil

26 mar

“O Homem é uno em sua expressão: não é o espírito que se inquieta nem o corpo que se contrai – é a pessoa inteira que se exprime.

(Klauss Vianna, A Dança)

Foi um dia bacana de oficina daqueles que a gente sai arejado, que sente que coisas funcionaram. Como na verdade o são, ou melhor, passam a ser muitos encontros de oficina depois que quem está ali na frente da coisa e que pode ter muitos nomes como professor, oficineiro, propositor (como vou utilizar), percebe que seu papel é menos ensinar e mais colocar problemas, incentivar disparos, propor desestabilizações. Muitos e muitos encontros de oficina tornam-se cheios de ar, nos botam frescos a pensar.

Foi um dia em que resolvi usar a câmera e registrar algo que estava acontecendo. Algo que aconteceu sem a menor previsão e que não veio nem um “tico” de mim. Estive ali apenas para acolher a proposta e possibilitar que outras coisas fossem disparadas além das que já estavam acontecendo. Nada mais que uma “inversão” de papéis, já que os participantes sempre acolhem às minhas propostas se disponibilizando a realizá-las e trazendo mais coisas a elas.

Aconteceu assim, estávamos lá no CAIA em uma das oficinas de artes. Éramos: uma garota, cinco garotos e eu, em uma oficina que acontecia às quartas-feiras geralmente entre 14h e 16h. Um espaço de encontro costumeiramente muito inventivo, muitas junções de coisas diversas, misturas de materiais, trabalhos colaborativos entre os guris, dentre outras coisas, como brigas, fofocas e picuinhas. Nesse dia um dos garotos mexia em um ventilador que antes era usado por nós, mas que há tempos atrás, em decorrência de uma queda, não estava mais funcionando tão bem.

Sei que ele tirou a hélice do ventilador e no lugar colocou um vinil. Ligou o aparelho na tomada e o vinil rodou rápido feito ele só. Todos vieram ver mais de perto, aquela coisa girando tão rápido, foi uma coisa bonita, animadora. Por minha vez, propus que, a partir dali, iniciássemos uma experiência de pintura. Fui correndo pegar a câmera de filmagem e a idéia era que jogassem tinta no vinil/ventilador.

Há poucas semanas havíamos trabalhado “com” Jackson Pollock22, experimentando seu modo de pintar articulado entre tintas e projeções corporais. Sei que não foi preciso dizer muito. Os garotos pareciam entender como se lançar acompanhados pelas tintas, ao vinil/ventilador. Memórias do corpo na experiência viva, incorporado em meio a desorganizações ósseas, teciduais, articulares, seguidas por novas organizações em cada novo movimento.

Infinitas combinações, do corpo inventor de si mesmo, doutor em escritas mancas, desviantes. Diferentemente de um adulto que caminhando, ao pisar num buraco quebra o pé, uma criança deixa-se cair inteira num percurso do alto ao baixo, tendo a possibilidade de criar um novo corpo assim que novamente se levantar. Ela, pesquisando a mobilidade de suas articulações deixa-se cair inteira na potencia da queda. Mente “quebrando-se” em mil pedaços, só para não se quebrar em duas partes. Um ponto de farsa desejável.

“O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.”

(Fernando Pessoa, Autopsicografia)


Não me lembro mais quem foi o primeiro a começar com as tintas, mas o guri que iniciara toda a experiência substituindo a hélice de ventilador por vinil, ficou tão animado que corria de um lado a outro subindo e pulando nas paredes. Ali no nosso espaço de ateliê/oficina, um por um foi lançando corpo misturado às tintas pelo ar. Cada um com seu modo ia pesquisando tonalidades de movimento em diferentes modos de lançar as tintas com os pinceis. Era tanta tinta voando para todos os lados que era preciso ir se “escondendo” pelos cantos do espaço, em constante desvio. Vários vinis foram pintados e também muitas roupas, sapatos, peles, dentes e cabelos. Foi um dia de muitos sorrisos, muita animação e também medo da mãe, pela sujeira em que se encontravam.

 

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